Compaixão e aceitação na psicoterapia

Venti Views

Um artigo publicado no The Guardian fala sobre como as principais abordagens em psicoterapia apresentam resultados semelhantes. Isso é algo já sabido há algum tempo, e acredita-se que aquilo que as abordagens têm em comum pode ser mais determinante para o resultado da psicoterapia do que as suas especificidades. A relação terapêutica e características pessoais do terapeuta apresentam um efeito mais relevante do que a aplicação de técnicas.

Ainda assim, os estudos que baseiam essas conclusões costumam falar sobre alívio de sintomas. Embora isso seja obviamente relevante e importante para as pessoas que buscam terapia, é apenas um recorte do que acontece e do que se obtém dentro desse processo. É bastante comum que as pessoas continuem em terapia mesmo após esse alívio inicial, e por vezes as pessoas procuram terapia sem apresentar sintomas específicos tão claros.

O artigo fala que, numa sessão de psicoterapia, se tem mais do que uma “amizade paga”: alguém que realmente está presente e ouvindo, com atenção, sem julgamento e com conhecimento sobre o comportamento humano. Isso vai além do que uma conversa com um amigo pode oferecer. Acho que isso dá uma ideia melhor do que acontece numa sessão de psicoterapia, mais do que se pode entender a partir de uma busca de solução de certas questões.

Como psicoterapeuta, estou sempre me questionando sobre o que está sendo feito em psicoterapia quando não estamos buscando resolver problemas específicos. Cada vez mais, especialmente depois da leitura de autores como Rogers, entendo que o meu papel como psicoterapeuta é sentir junto, ou, em outras palavras, estar com a pessoa num estado de compaixão. Já me perguntaram, algumas vezes: “como você faz para não se afetar com o que as pessoas trazem para a terapia?”. A resposta é que eu não faço, ou seja, não há como não me afetar.

Eu não consigo estar com a pessoa e não sentir com ela, sejam alegrias, tristezas, medos e esperanças. Eu realmente fico feliz com os sucessos, fico triste com as perdas, fico preocupado nos momentos de desespero. Entendo que os estados emocionais são passageiros, que podemos olhar para esses momentos de outras perspectivas, busco ajudar as pessoas a se regularem quando preciso — mas tudo isso estando junto e sentindo junto com quem atendo. Algumas vezes, é nesse sentir que consigo ajudar a pessoa a ver o que ela ainda não vê, e expressar emoções que ela não conseguiria.

Isso só é possível quando se tem uma postura de aceitação que, de certa forma, é distinta — talvez até incompatível — com a ideia de que a terapia é um “tratamento”. Um tratamento pressupõe um certo funcionamento e emprega os recursos necessários para que esse funcionamento seja atingido. Quando não estamos buscando resolver questões práticas específicas, há espaço para essa ideia de se ficar em paz consigo mesmo. Essa é uma postura difícil porque muitas vezes vemos nas pessoas que atendemos atitudes que geram sofrimento para elas mesmas e é inevitável pensar que ela mesma estaria “melhor” se conseguisse fazer só isso ou aquilo. Ou seja, a própria empatia com o sofrimento da pessoa pode atrapalhar a aceitação. Empatia com aceitação significaria: “eu vejo seu sofrimento, sinto seu sofrimento, compreendo o que leva a esse sofrimento e entendo que, nesse momento, você não consegue fazer de outra forma”. O irônico é que essa postura, muitas vezes, pode até trazer de fato uma mudança, mas pelo caminho da aceitação. E a aceitação precisa ser genuína; não pode ser um engodo que esconde que o desejado, no final das contas, era a adequação, a “normalidade”.

As pessoas já ouvem o tempo todo que elas deveriam ser diferentes, que deveriam corrigir isso ou aquilo, se aprimorar, deixar de cometer os mesmos “erros” e coisas do tipo. Ouvimos isso o tempo todo, e costumamos nos dizer isso o tempo todo também. Não é simples, mas acredito que o espaço da psicoterapia deva ser protegido de normas, julgamentos e cobranças. Com isso, criamos uma espécie de refúgio em relação a tudo aquilo que nos é exigido pelo trabalho, pela família, pela igreja, pelos médicos, pelos amigos e por nós mesmos, ao internalizar isso tudo a ponto de que a voz da exigência pareça ser a nossa própria voz. Acredito que é isso que faz com que as pessoas busquem e permaneçam em terapia além da ideia de “melhora”: é o que acontece quando elas descobrem que podem ter um espaço — talvez o único — em que nada é esperado ou exigido, nenhum tipo de “melhora”.

Declarações sobre o eu na psicoterapia

Ao ler um livro sobre psicoterapia, o seguinte trecho me chamou a atenção:

A psicoterapia tradicional vê os “problemas” como muito reais. Uma quantidade enorme de tempo e energia é frequentemente gasta tentando se livrar de emoções que simplesmente passariam, como o clima de um dia, se não as julgássemos um problema a ser resolvido, ou uma declaração sobre um “eu” em vez de um momento. Anos podem ser gastos tentando mudar uma autoimagem negativa para uma positiva sem nunca questionar se uma imagem é realmente quem somos. Os clientes querem se sentir melhor e procuram um terapeuta para efetuar essa mudança. Isso é bom. Mas, embora uma autoimagem positiva possa parecer melhor, ela é tão limitante, falsa e temporária quanto qualquer outra imagem. O que há aqui por baixo da imagem? “O que é realmente verdade?” torna-se uma questão muito mais interessante do que “Como posso manipular a vida, ‘eu, ‘você’ ou ‘eles’ para sentir/ser de uma certa maneira?”
Dorothy S. Hunt, em Listening from the Heart of Silence

O texto me impactou porque o que mais fazemos na psicoterapia é trabalhar com as “declarações sobre o eu” citados pela autora. As queixas iniciais se referem, geralmente a alguma dessas declarações, como: “sou muito ansiosa”, “sou explosivo”, “não me encaixo”, “não consigo trabalhar como deveria”.

Independentemente da abordagem, o passo seguinte geralmente é expandir essas declarações. Seja buscando material da infância, seja dos contextos atuais. Criamos uma narrativa com pressupostos causais sobre essas declarações. Fazemos isso porque acreditamos que essa compreensão nos permitirá mudar essas declarações ou, em outras palavras, ”resolver” o “problema” que a pessoa está nos trazendo. Não é raro que passemos muito tempo – anos, até – simplesmente debatendo essas ideias até montar uma narrativa que pareça suficiente.

Essas narrativas podem ser mais ou menos verdadeiras (no fundo, nunca teremos como saber) e as condutas que derivam delas podem ser mais ou menos eficazes. Às vezes parecem levar a algum tipo de melhora, outras vezes não. Mas o que a autora questiona é que, mesmo quando funcionam, apenas estamos arranhando uma superfície.

Na melhor das hipóteses, teremos algum tipo de mudança que permitirá à pessoa substituir uma declaração não tão boa sobre o eu por uma mais positiva. “Me sinto menos ansiosa”, “tenho me controlado mais” ou algo nessa linha. Mas, o que estamos fazendo, na verdade, é fortalecer uma narrativa subjacente: de que é preciso alcançar uma narrativa “ideal” e que qualquer coisa além disso é um fracasso, é algo que precisa ser resolvido.

Mesmo que eu “melhore”, eu preciso me manter alerta, focado em não escorregar de volta para os velhos “padrões” indesejáveis. A medida em que a narrativa sobre o que sou está distante daquela que acredito que devo ser é a medida do meu sofrimento. Tentar melhorar a narrativa sobre o que somos só acentua essa discrepância, revelando um paradoxo da psicoterapia.

É claro que é preciso validar e dar atenção para essas narrativas. Existem questões práticas e sofrimentos imediatos que podem ser aliviados. Mas ficar apenas nisso é como ir num ótimo restaurante e comer só a entrada. Na minha visão, o trabalho realmente interessante e profundo acontece quando podemos questionar e – quem sabe – até mesmo largar essas declarações sobre si.

“Quem é essa pessoa que se percebe ansiosa? Para que serve essa afirmação? De onde vem a ideia de que você não deveria se sentir ansiosa? Como seriam as coisas se você não tivesse essa declaração sobre si mesma?” são exemplos de perguntas que poderíamos fazer quando queremos ir em uma direção distinta à de simplesmente “resolver” o “problema” da ansiedade.

Abandonar as narrativas sobre nós mesmos parece assustador. Nós as percebemos como os alicerces sobre os quais nos sustentamos, como definidoras do que somos e do que devemos ser. Mas poucas vezes percebemos quão limitantes – ou simplesmente irreais – elas são. Nenhuma narrativa, pois mais completa que seja, é capaz de realmente descrever a magnitude da nossa experiência. E como seria a nossa experiência de vida sem as amarras dessas histórias?

Foto: Dang Tran

A Hospedaria, de Rumi

Existe um poema famoso do filósofo sufista Rumi que é usado para se trabalhar alguns conceitos em terapia com as pessoas atendidas. É chamado de A Hospedaria (traduzindo da versão em inglês, chamada de The Guest House).

A Hospedaria

O ser humano é uma hospedaria.
Toda manhã, uma nova chegada.

Uma alegria, uma depressão, uma maldade,
Alguma consciência momentânea vem
Como uma visitante inesperada.

Receba e entretenha a todos!
Mesmo que sejam uma multidão de tristezas,
Que violentamente varre a sua casa
E a esvazia de seus móveis.
Ainda assim, trate cada hóspede honradamente.
Ele pode estar te limpando
Para um novo deleite.

O pensamento sombrio, a vergonha, a malícia,
Encontre-os à porta rindo,
E os convide para dentro.

Tenha gratidão por quem vier,
Pois cada um foi enviado
Como um guia dos confins.

Rumi (mestre sufi do século XII)

A ideia é que as emoções, pensamentos e estados internos são vistos como visitantes, enquanto a pessoa seria a própria hospedaria — ou o seu gerente. Com isso, conseguimos trabalhar conceitos como desfusão (você não é aquilo que pensa ou sente) e self como contexto (você não é algo sólido e estático, e sim algo como um espaço em que os estados surgem e desaparecem).

Podemos usar metáforas parecidas, como as que comparam o self com um palco em que os personagens entram e saem, ou com um ônibus, em que os passageiros sobem e descem, mas que não controlam a direção para onde o ônibus vai. Essa perspectiva é bastante característica da Terapia de Aceitação e Compromisso, ou ACT.

Entretanto, todo modelo de terapia espera, em última análise, uma mudança. Mesmo na ACT, em que o A é a sigla para aceitação, se prega essa aceitação para que alguma mudança ocorra. Usa-se a disponibilidade em função de um certo direcionamento da vida. Me parece que o poema de Rumi não fala isso.

O poema descreve uma completa rendição. Fala da incontrolabilidade e da imprevisibilidade dos estados internos. A única “atitude” defendida é a de não resistência, de se assistir o desenrolar da vida interna sem nenhum tipo de luta: ao contrário, com abertura e receptividade. Não há um ganho prometido, não se trata de um truque para que depois se tenha controle. Essa aceitação final e total é muito mais profunda do que qualquer modelo de “terapia” pode proporcionar.

Foto: Phil